Histórias d’África – Uma bola dourada e o absurdo de uma eleição

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Há coisas que não se fazem. O facciosismo e o poder dos lobbies e influenciadores quando se tornam exageradamente evidentes, obscurecem as coisas da vida em que, a maioria de nós, cidadãos de bem, acredita: na ética e honradez dos homens. O bom senso mandava a revista France Football manter o seu prestígio e da atribuição do mais tradicional prémio mundial do futebol, a Bola de Ouro de que é responsável desde 1956. Ficámos a perceber quão necessário é ser-se servilista quando se precisa de contentar investidores; de quão poderoso se tornou o catariano Nasser Al-Khelaïfi no futebol francês e a sua qualidade de negacionista da boa convivência entre os agentes da modalidade na Europa, isto para além de outras actuações muito mais preocupantes do ponto de vista da política, contrariando a formalidade e os conteúdos das constituições das democracias do Ocidente a que se soma o apoio a organizações islâmicas mais extremistas que actuam em vários cenários de conflitos regionais. Convém aqui fazer um parêntesis para recordar como a proposta do Qatar para organizar o “Mundial 2022” ganhou e as consequências daí decorrentes com a evidência de um gigantesco caso de corrupção ainda em parte por solucionar judicialmente.

Segunda-feira, dia 29, ao final da tarde, sentado no meu sofá, fiquei boquiaberto com a atribuição, pela sétima vez, do troféu a Leonel Messi, justificado com a conquista da última Copa América, ao serviço da selecção da Argentina. E não fui apenas eu que me admirei com a decisão. Por exemplo Iker Casillas, antigo guarda-redes do Real Madrid e do F. C. Porto foi peremptório: “É cada vez mais difícil acreditar nesta coisa dos prémios de futebol. Para mim, Messi, é um dos 5 melhores jogadores de toda a história mas há que começar a saber catalogar quem são os mais destacados ao cabo de uma temporada. Não é tão difícil de o fazer. São outros que o tornam penoso”.

Que fique claro que nada me move contra o avançado argentino. Mas foi precisamente a conquista da Copa América o único feito relevante na época passada depois de um percurso no Barcelona completamente apagado e limitado ao mal-estar e por várias peripécias com o então treinador do clube catalão, Ronald Koeman. E uma época que recomeçou com a cruzada, lágrimas e sorrisos por causa da mudança para o Paris Saint-Germain a troco de 350 milhões.

Mas o absurdo desta coroação acabaria por ficar assinalada por dois instantâneos: A estupefação de Robert Lewandowski que não escondeu o rosto de esmorecimento até final da cerimónia e o pedido de Messi para que o organizador “France Football” envie uma bola de ouro para o jogador polaco do Bayern de Munique. Aliás, o anúncio do novo Bola de Ouro aconteceu depois da entrega do novo troféu de melhor marcador a Lewandowski mais uma evidência da incoerência da atribuição da Bola da Ouro. Aumentam as reservas sobre a forma como se atribui mais este prémio de desempenho profissional. Poderemos crer que – como na maioria dos casos deste Mundo contemporâneo controverso e de favores entre todos os poderes – este é mais um galardão que se pode comprar.

Messi – com 613 pontos – conquistou outra vez a Bola de Ouro contra Robert Lewandowski (580 pontos) do Bayern de Munique, protagonista de uma caminhada fantástica no Bayern de Munique (que se mantém imparável como melhor marcador da nova temporada) e o ítalo-brasileiro Jorginho, do Chelsea, que obteve 460 pontos. Também à frente do ‘madrilista’ Karim Benzema (239 pontos), outro dos goleadores de 2021, e ainda do francês N’Golo Kanté, do Chelsea que só já conseguiu 186 pontos, mais 8 escassos pontos que Cristiano Ronaldo.

Já há muito que se tornou perceptível que o futebolista português se tornou numa espécie de mal-amado para os eleitores do “Ballon d’Or” que já em 2018 haviam entregado o troféu ao croata Luka Modric, precisamente num momento em que era companheiro de equipa do português, e numa temporada futebolística de sonho e que fica entre as melhores de sempre de Cristiano. Agora – porventura por descargo de consciências – o português ainda entrou nas contas e ficou na sexta posição com 178 pontos apesar de ter vencido a Bota de Ouro do “Euro 2020/2021” e tornar-se o melhor goleador da história do futebol, tendo protagonizado uma carreira de sucesso no ano que agora termina. Mais: Cristiano revela-se decisivo nos triunfos do seu novo clube, o Manchester United. Não pretendo insinuar que fosse Cristiano Ronaldo o grande candidato: mas é indiscutível que fez melhor que Messi ao longo do ano de 2021. Obviamente que só Robert Lewandowski e Karim Bezerma estavam em circunstância de discutir a atribuição do “Ballon d’Or”.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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