Histórias d’África – ¡Zero ajudas directas imediatas! Para a erupção mais destrutiva de sempre

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A quase contínua desagregação do cone vulcânico é a causa maior dos enormes prejuízos para as famílias palmeiras que ora veem as suas casas sepultadas pela lava; ora perdem o sustento com o desaparecimento das suas estufas e culturas. Perdem-se histórias de vidas: Queimaram-se memórias e o espólio que se construiu – a maioria a pulso – durante décadas.

Aos 54 dias de erupção, são 5 os maiores trilhos de lava. E há uma segunda estrada de magma que chegou ao mar, mesmo junto à primeira, mas que destrói a Praia de Los Guirres.

A natureza é incomensurável: A frente de um dos cursos da lava atinge os 20 metros de altura. A quantidade de matéria fica como que estática e acumula-se em altura. Dificilmente se poderá reconstruir a estrada e as construções engolidas.

Em alguns dos seus cursos a largura supera os 2,5 quilómetros de largura. Alguns fazem-se através de tubos vulcânicos, sob fluxos já existentes ou sobre sulcos dessas mesmas correntes. Nos cursos de lava mais lentos pela sua espessura com demasiados piroclastos e pedaços maiores, a altura da lava atinge entre os 15 a 20 metros. O cenário é confrangedor. No final de Outubro, haviam 2.146 edificações perdidas, a maioria habitações. E à passagem deste último final de semana, ultrapassaram-se os 10 milhões de metros quadrados soterrados. À data contam-se 467 pessoas que se encontram em regime de acolhimento por não terem para onde ir.

Todos, invariavelmente, fazem duas perguntas: Quanto tempo perdurará a erupção e qual será o percurso da lava se o cone do vulcão se continuar a desfazer por se abrirem novas bocas eruptivas?

A ciência ainda não consegue responder a estas questões apesar de se fazer um seguimento exaustivo da crise vulcânica por meio da utilização de satélites, estações GPS, eco-sondas, câmaras térmicas e drones.

Duas certezas:

  • A boa notícia de que as novas estradas de lava não estão a ocupar território novo, antes a correr por cima das primeiras, sobre sulcos que estas formaram ou sob as mesmas por via dos chamados tubos vulcânicos.
  • Uma notícia menos boa, refere-se à persistência dos movimentos sísmicos a profundidades mais ou menos significativas, entre os 13 e os 38 quilómetros de profundidade. O fenómeno pode indicar que há ainda muito magma por expelir. O último domingo, dia 7, foram detectados 50 movimentos sísmicos entre eles dois de maior intensidade e consecutivos, de 4,5 e 4,6 de magnitude à escala de Richter, a uma profundidade de 38 e 37 quilómetros. Ambos ocorreram sobre as 17:00 horas, com 8 segundos de diferença, localizados sob a Villa de Mazo, e foram sentidos também nas ilhas de La Gomera e Tenerife. Uma hora depois, em Fuencaliente sentiu-se novo abalo importante: Registo de 3,6 de intensidade e foi localizado a 13 quilómetros de profundidade. Já na manhã de domingo, assinalaram-se outros três sismos relevantes, dois com epicentro em Fuencaliente (3,4 e 3,3 na escala de Richter e 13 quilómetros de profundidade) e um outro debaixo da Villa de Mazo (com magnitude de 3,2 a 14 quilómetros). Mas o dia 10 de Novembro também fica marcado por outro abalo em Villa de Mazo, com magnitude de 4,8 e registado a 38 quilómetros de profundidade.
  • O vulcão expele diariamente de 15 e 30.000 toneladas de matéria, desde piroclastos, cinzas, vapor de água e dióxido de enxofre.

¡Zero ajudas directas imediatas!

Ao 53º dia de vida da erupção do vulcão de La Palma, as ajudas directas dos governos da nação e da Comunidade Autónoma das Canárias são zero. Isto sucede apesar das 6 deslocações do presidente do governo de Espanha, Pedro Sánchez, e de outros três ministros, sempre com boas notícias, a última das quais colocava as ajudas directas no valor de 300 milhões de euros. Foi anunciada pelo próprio líder governamental, no dia 13 de Outubro, à chegada à ilha na sua quarta deslocação. Recorde-se que antes garantiu-se 15 milhões e mais tarde – a avaliar pelos enormes estragos e perante a previsão de um cenário agravado – 214 milhões.

Está para breve a entrega de 18 apartamentos novos ou recondicionados adquiridos e a entrega da primeira de 200 casas de madeira que foram adquiridas: São casas que terão cerca de 75 m2, sólidas e sustentáveis à semelhança do que se pode encontrar em Tenerife, construídas em quintas ou em terrenos rústicos, a maioria adquiridos por estrangeiros residentes, como também nos países escandinavos. O município de Los Llanos de Aridane prepara já a terraplanagem de 25.000 metros quadrados para que se possam construir a maioria das casas de madeira compradas.

Também não chegou nenhuma contribuição do fundo de socorro europeu, da UE que são oferecidas sempre que os estragos sejam iguais ou superiores a 1% do PIB da região afectada. La Palma enquadra-se nesse estatuto já que 1% do PIB da Comunidade Autónoma das Canárias é de 400 milhões de euros e essa soma está ultrapassada pelos enormes prejuízos ocorridos.

Lembro-me das catástrofes em Portugal, particularmente do gigantesco incêndio de Pedrogão em 2017 que se transformou na maior tragédia humana deste século no interior do país.

Tal Portugal; tal Espanha: Resulta do ideário socialista tipificado no Centro e Sul da Europa em que se fazem promessas sem que antes se abra o cofre e se conte o que lá se encontra. É uma outra tragédia: A da demagogia e da falta de honradez destes governantes. A adversidade dos palmeiros é o facto de terem um governo autonómico em todo semelhante ao do Reino: Social comunista liderado por narcisistas, inexperientes no que respeita ao conhecimento da vida social e económica das sociedades.

Ajudas directas imediatas não vão acontecer nos próximos dias. Os políticos e comentadores políticos pró-esquerda justificam que se impõe burocracia que garanta a equidade e justeza das ajudas para que não haja oportunismos. Perfeito! Mas convém perceber que se trata de uma ilha com 83.458 habitantes (censos de 2020) e um problema numa área territorial perfeitamente identificada e possível de rastrear os perdedores de património e a dimensão dessas percas. A tecnologia utilizada pelos organismos de Estado é mais que suficiente, eficiente e capaz de o fazer com uma rapidez incontestada. Às governanças também importa identificar as famílias que têm as suas casas e haveres atrapados entre as estradas de lava e que se encontram impossibilitados de lhes aceder, mesmo durante largos meses senão 1 ou 2 anos e contar com o esforço de se rasgarem caminhos para lá chegarem.

Fragata da armada

para desembarcar agricultores

junto das estufas

Há quem vaticine que se espera pelo final da erupção. A maioria dos atingidos pelo desastre da Cumbre Vieja depositam confiança apenas na solidariedade dos cidadãos, das empresas e de organizações não-governamentais. A isto junta-se uma outra problemática que nos conduz à ignorância dos responsáveis políticos: Fala-se sistematicamente em reconstrução. E logo faz-se a pergunta óbvia: Reconstruir o quê?

O que se precisa é de construir de novo, precisamente o que se encontra sepultado debaixo da lava e que lá ficará para a eternidade.

Também os pescadores daquela zona sudoeste da ilha precisam de ajuda: Não têm rendimentos há 54 dias, nem sequer previsões sobre o dia em que poderão voltar ao mar.

Já mais aliviados estarão os agricultores que se dedicam à produção de bananas e outros frutos ou hortícolas que não conseguem aceder às suas plantações por estarem cercadas de lava ou pela dificuldade em o fazer, alguns tendo de dar voltas por estradas durante mais de duas horas. À ilha chegou uma fragata da armada que ensaia o transporte dos agricultores por via marítima, utilizando semirrígidos que têm enorme mobilidade: Trata-se de fazer o transporte entre um molhe portuário e uma ou mais praias para que se permita a acessibilidade aos invernadeiros – estufas – principalmente de bananas para salvar as colheitas.

Quanto vão receber as famílias que perderam tudo?

De momento, anunciam-se 300 inscritos no registo para subvenções do governo da Comunidade Autónoma das Canárias. Em todo o caso serão necessárias 680 novas habitações imediatas para os que perderam tudo, devíamos interrogar como será organizada esta construção e como será paga, ou seja quem mais intervirá para além dos cidadãos que ficaram sem nada.

Feitas as contas temos 15 441,17€ por família que perdeu a casa e o recheio. São as subvenções previstas no Real Decreto 307/2005 de 18 de Março para este género de catástrofes.

Mas devemos fazer outras interrogações:

A primeira é relativa à preocupação dos doadores que querem saber onde se encontram as suas doações pecuniárias e a razão pela qual não se distribuem?

A segunda não menos pertinente é o significado de «O governo trabalha num plano de reconstrução para La Palma com medidas de “todo o tipo”?»

A terceira pergunta é saber como será possível com 33.141€ construir ou comprar qualquer habitação digna dessa designação com apenas 33.141€ e incluir neste orçamento a aquisição de mobiliário e electrodomésticos?

Erupção mais destrutiva de sempre

Desde que há registos sobre as erupções vulcânicas na Ilha de La Palma, a mais destrutiva é a de agora. A história revela-nos 8 crises vulcânicas:

  • A primeira erupção com anotações científicas aconteceu em 1585, é conhecida por Tehuya, durou 84 dias e foi a mais longa de todas até agora. Então já se fizeram medições e verificação da sismicidade, da deformação da crosta na área circundante. Também se quantificou o território por onde se dispersaram as cinzas. Foi nesta altura que se formaram os roques fonolíticos de Jedey.
  • Antes, entre 1430 e 1440 aconteceu a primeira crise vulcânica de que existem crónicas. Ficou conhecida por Tacande e ocorreu na zona mais alta do actual município de El Paso. A história relaciona o fenómeno com a morte do nobre mais importante da ilha,
  • Em 1646, deu-se a erupção “Martín”. Esteve uma actividade 82 dias. A maior curiosidade deste fenómeno é o registo do abrimento de um novo emissor junto à costa que criou uma ilha baixa e que manifestou características presentemente designadas como havaianas.
  • À passagem de 1677 para 1678 e durante 66 dias aconteceu a erupção a que se deu o nome de Santo António. Foi a que mais matou: 4 cidadãos. Também foi a que teve mais fases explosivas e efusivas ao longo de uma fenda com 10 focos emissores. Imensas agriculturas ficaram sepultadas.
  • A erupção mais semelhante à actual aconteceu em 1712. Chamaram-lhe “El Charco” e foi a quinta desde que há registos. Durou 56 dias e foia a que arrasou maior superfície até então.
  • No século passado (séc. XX) deram-se duas erupções em La Palma: “San Juan”, em 1949, e Teneguía, em 1971. A primeira foi a mais explosiva. 1.000 Pessoas tiveram de ser evacuadas e cerca de uma centena de casas foram destruídas. Já a erupção de 1971 foi reconhecida como das mais espectaculares, apesar dos constrangimentos que o fenómeno gera. Também acabou por ser a que maiores danos acabou por trazer, mas não pelo impacto provocado: Imagine-se que a partir de então se passou a considerar o vulcanismo como um espectáculo e pouco perigoso.
  • Domingo, 19 de Setembro de 2021, ficará marcada na vida dos palmeiros e certamente de todos os canários. Explodiu o vulcão da Cumbre Vieja, o mais destrutivo e que deixará sequelas, a curto e médio-prazo na vida socioeconómica de La Palma e no arquipélago das Canárias onde persiste a crise deixada pela pandemia de SARS-CoV-2 e onde se contam 373.000 pessoas num período de privação e pobreza severa. . – por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

Em baixo, ao abrir o link, poderá ver diversos vídeos e ler informações muito completas e actualizadas sobre a erupção do Vulcão da Cumbre Vieja, na ilha de La Palma. Trata-se do sítio do Instituto Geologico y Minero de España que é uma das entidades governamentais que se encontra a monotorizar todos os detalhes da actividade vulcânica e sísmica de La Palma a par com o INVOLCAN, o Instituto Volcanológico de Canraias que acompanha e investiga a sismicidade e movimentos vulcânicos do arquipélago.

https://info.igme.es/eventos/Erupcion-volcanica-la-palma/videos

No link abaixo poderá ver-se vários mapas que reportam diversas evoluções do vulcão da Cumbre Vieja.

https://info.igme.es/eventos/Erupcion-volcanica-la-palma/visores-mapas

Imagens em directo através da RTVC, Television Canaria:

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