Histórias d’África – Recordes, angustias, incertezas, pobreza, liberdade para uns e restrições para outros…

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Estimam-se que as percas do turismo de Espanha com os cancelamentos de reservas de agora até meados de Agosto se situem entre 20.400 e 24.100 milhões de euros. Este é o efeito directo da 5ª vaga da pandemia de SARS-CoV-2 que bate recordes de contágios por causa da variante Delta – B.1.617.2 – mais transmissível, resistente às vacinas, porventura menos letal que as estirpes iniciais. Preocupa 141 países onde já é predominante em mais de 10,5% dos infectados globais. Nas Comunidades Autónomas das canárias e da Cantábria, 20% dos novos contágios acontecem em cidadãos vacinados com uma dose e outros 10% já com a pauta completa. Na Europa está em ascensão e é transversal. É responsável por novos conflitos e apreciações nos critérios de mobilidade entre países e regiões. Israel começa a administrar a terceira dose de todas as inoculas aos primeiros habitantes completamente vacinados. E junta-se aos Países Baixos e ao Reino Unido na regra de que será sempre necessário a apresentação de prova PCR negativa para entrar no país quer tenha ou não ‘passaporte Covid’. No japão onde o vírus parecia controlado, as Olimpíadas só mesmo pela televisão: Tudo à porta fechada.

Liberdade, só mesmo para inglês ver, em Inglaterra, onde acabam as restrições e as medidas de segurança para quem lá vive. Nem tão pouco o anúncio do ministro da saúde, Sajud Javid, se ter contagiado, estando vacinado com as duas doses da AstraZeneca, trava a vontade da maioria dos cidadãos para satisfação dos negacionistas.

Em sinal contrário, para os países fortemente dependentes da indústria do turismo, voltamos à estaca ZERO: Principais países de origem do turismo voltam a colocar as Canárias no semáforo vermelho. Pelo menos, Reino Unido, Países Baixos, Alemanha e França desaconselham férias em todo o território de Espanha, bem como em Portugal. Países Baixos e Reino Unido vão mais longe: Mini quarentena obrigatória no regresso para todos, mesmo os que se encontram totalmente vacinados, e têm de viajar com uma prova PCR negativa. Ainda assim, terão de fazer um teste PCR ao segundo dia após a chegada e um outro entre o 5º e 8º dia. E só depois podem voltar à vida normal. Muitos antecipam o regresso, principalmente os turistas que trabalham. Muitos dos que já se encontram reformados (e a maior curiosidade vai para os repetentes) decidem prolongar as férias, aguardando que a evolução seja positiva.

Nas Canárias bate-se recorde de contágios de sempre: Acabámos a semana com um registo de 732, ou seja 4,97 vezes mais que o pico de 147 casos num só dia em Março de 2020, na primeira vaga. E ontem, Domingo, anotaram-se mais 569 positivos. Faltam explicações credíveis para justificar tremendo acontecimento num arquipélago quase a meio do Atlântico que podia ser o local mais seguro do Mundo. 44,6% da população está completamente vacinada num total de 58,8% já com uma dose administrada. E na globalidade, já se conseguiram vacinar completamente 23.372.796 pessoas até sábado,

mais ou menos 50% da população. Em Espanha, a incidência acumulada em 7 dias entre os 12 e os 29 anos é impressionante: Ultrapassa os 1.500 casos por 100 mil habitantes. E na Catalunha, a globalidade da incidência acumulada é de 1.160 infectados.

Mas os recordes no arquipélago das Canárias são muitos:

  • Ontem, Domingo, registavam-se 8.396 casos activos e detectaram-se 569 novos contágios, baixando-se da fasquia dos 600 diários.
  • No arquipélago, a incidência nos últimos 14 dias era de 299,18 casos por 100.000 habitantes, no dia 16.
  • Uma transmissibilidade entre os 2 e os 8 casos, ou seja cada infectado pode contagiar até 8 outros cidadãos. Situação quase dramática no que respeita às transferências comunitárias em ambientes de convivência, tanto mais que a estirpe Delta, também conhecida como Indiana, supera os vacinados com uma só dose e baixa drasticamente a eficácia das vacinas da plataforma mRnA, das farmacêuticas Pfizer e Moderna.

As estatísticas agora reveladas sobre 2020 são como que uma gigantesca pedrada no charco, onde o maior impacto se faz sentir nas ilhas de Lanzarote e Fuerteventura:

  • Queda do PIB foi de 20,1%, o dobro do registado na Espanha peninsular que se situou nos 10,8%.
  • 12,01% de empregos perdidos, significando 112.900 postos de trabalho que não serão reactivados tão depressa.
  • Mas em 4 de Junho deste ano, registavam-se 70.951 trabalhadores ene RTE, modelo em todo semelhante à lay-off portuguesa. Naturalmente bastante menos do que se registou em Abril do ano passado cuja cifra se situou nos 231.537 cidadãos trabalhadores.
  • As receitas tributárias da Comunidade Autónoma caíram 16,1%, qualquer coisa como 908 milhões de euros, dos quais 351,39 milhões resultaram directamente de percas do IGIC, imposto que substitui o IVA e cuja taxa máxima é de 7%, isto por força do Regime de Excepção enquadrado dentro da própria União Europeia, atribuído à Comunidade Autónoma das Canárias.
  • O sector dos serviços – representativo da maior actividade sócio-económica – caiu 27,1%, enquanto o sector primário, a agricultura se manteve positivo, gerando mais 2,1% da riqueza das ilhas.
  • Já a dívida pública é de 120% do PIB nacional.
  • 7% da população do país está pobre e poderá entrar em risco extremo.

A vacinação massiva é de momento, mal ou bem, com maior ou menor eficácia, a solução para diminuir a transmissibilidade da infecção pelo SARS-CoV-2.

A comunidade médica e científica global chegam a uma conclusão quase unanime: A chamada imunidade de rebanho só deverá acontecer com quase 100% da população vacinada; que a cada 4 meses é expectável que apreça uma variante mais resistente e com maior rapidez de transmissão; que deveremos considerar tomar pelo menos mais uma dose de vacina independentemente da farmacêutica elegida. Há mesmo quem advirta que o SARS-CoV-2 poderá matar ainda mais um milhão de pessoas. No entanto, o maior conhecimento sobre o vírus e o seu comportamento permitem maior eficácia na cobertura hospitalar e evitar mortos em números proibitivos. Em Espanha, apesar do número de contágios, a ocupação média em UCI é de 9,59%. Mas na Catalunha, o risco já é elevado com 26,02 % de pacientes em cuidados intensivos. Segue-se a cidade de Melilla, com 17,65% e as baleares (11,27%).

Deixou de se colocar a possibilidade de adiar as Olimpíadas de Tóquio 2020-1 que começam já na próxima sexta-feira, dia 23. Os registos de infectados no Japão aumentam, ainda assim abaixo da média da maioria dos países mais desenvolvidos. E o medo apodera-se dos responsáveis pelo país. A decisão mais imediata: Evitar maiores aglomerações de pessoas relativamente às que já ocorrem e principalmente concentrá-las nas horas laborais. Por isso, a decisão, porventura mais acertada, apesar de triste e impensável há dois anos: Os Jogos Olímpicos, a maior festa do desporto global vão decorrer à porta fechada e debaixo de apertadas regras sanitárias e controlo de mobilidade

Faz todo o sentido manter as perguntas:

  • Será que os cidadãos são globalmente incultos?
  • Será que ninguém percebe que as vacinas anti-SARS-CoV-2 – tal como todas as outras umas mais e outras menos – não imunizarão 100% de todos quanto sejam vacinados?
  • Será que não temos a capacidade de perceber que haverá uma faixa de 25 a 35% de vacinados que jamais ficarão livrados de contágio? E consequentemente o ‘Passaporte Covid” não garantirá imunidade global?
  • Nas Canárias, desafortunadamente não há transparência suficiente para que saibamos onde, quando e como ocorrem estas transmissões num arquipélago que podia estar entre os territórios mais seguros do Mundo?
  • Porque se mantêm os controlos aleatórios nos aeroportos e nas infraestruturas portuárias, principalmente para quem chega às ilhas vindos da Península?
  • Porque não se oferece (ou exige) provas PCR negativas a todos os que entram no arquipélago, mesmo aos originários da península espanhola e inclusivamente aos vacinados numa óptica de publicitar férias seguras?
  • E por que não se explica que neste como em outros casos, os vacinados com pauta completa só conseguirão eventual imunização passados duas semanas de serem inoculados com o programa de vacinação completa?
  • Por que razão não se quer assumir a evidência que a Ocidente a maioria dos países se encontram distantes da imunização de rebanho?
  • E pior, qual será o motivo dos países ocidentais particularmente os Estados Membros da União, não terem aproveitado estes 18 meses de pandemia para conseguirem legislação adequada a esta crise global, no estrito sentido de proteger os direitos sociais comuns impedindo excepcionalmente que se coloquem os direitos individuais à frente de tudo?
  • E quando é que todos percebemos que não vale só garantir a vacinação entre os países mais desenvolvidos, tendo que acelerar a campanha de vacinação globalmente?

A persistir esta ineficácia – e uma certa ignorância (propositada?) – de quem manda teremos seguramente o prolongamento das inquietudes da maioria dos possuidores de senso comum.

Vejamos um pormenor da falta de critério no controlo da pandemia em matérias restritivas: É ridículo de que nos centros comerciais e nos supermercados o vírus “siga dentro de momentos”, se mantenha afastado como sempre e nestes espaços não há regras de limitação de entradas excepto em alguns estabelecimentos de porta aberta para as ruas e na maioria por iniciativa própria. Mas em sinal contrário, as praias encontram-se com indicação de lotação mínima.

As variantes de maior impacto na saúde pública (VOC) são as mais transmissíveis, mais virulentas ou que possam escapar ao efeito dos anticorpos adquiridos após infecção natural ou vacinação com variantes anteriores. Presentemente, considera-se que as VOC são quatro: Alfa (B.1.1.7), Beta (B.1.351), Gamma (P.1) e Delta (B.1.617.2).

As mutações mais relevantes são: N501Y (presente em Alfa, Beta e Gamma), E484K (presente em Beta e Gamma) e L452R (presente na estirpe Delta). Para todas as variantes exige-se como eficácia, as medidas de prevenção como o uso da máscara, distância interpessoal,

higiene das mãos e ventilação.

Variante Alfa (B.1.1.7) – Regista uma diminuição na sua prevalência nas últimas semanas. Foi predominante na Europa e em outros locais como os Estados Unidos e Israel. Mais transmissível do que variantes anteriores, possivelmente mais letal, embora não pareça que escape à imunidade das vacinas ou a quem já passou pela enfermidade anteriormente.

Variantes Beta (B.1.351) e Gamma (P1)

  • Beta é predominante na África do Sul e países vizinhos. Na Europa representa uma pequena percentagem dos contágios. É provavelmente mais transmissível e apresenta possibilidade de fuga perante resposta imunológica adquirida após a infecção natural ou provocada por algumas vacinas.
  • Gamma é predominante na América do Sul, especialmente no Brasil. Presente em numerosos países europeus de baixa frequência (um pouco maior em algumas regiões de Itália). Possível aumento da transmissibilidade. Escapa a algumas respostas de imunidade.

Em Espanha, na semana 25 (de 21 a 27 de Junho), com dados de 12 CCAA, a percentagem de casos compatíveis com as variantes Beta ou Gamma estimados por PCR regista-se num intervalo entre 0% e 15,3%.

Variante Delta (B.1.617.2)

  • Maioritária na Índia e no Reino Unido. Provavelmente mais transmissível do que a variante Alfa. Os primeiros sinais no Reino Unido indicam maior probabilidade de entrada. Ligeira diminuição da eficácia da vacinação com duas doses, e mais acentuada para pessoas a quem ainda só foi administrada uma única dose.

Em Espanha, a variante Delta tem vindo a aumentar a sua percentagem nas amostragens aleatórias: atingiu os 10,8% na 24ª semana.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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