Histórias d’África – Em 3 semanas, vira o disco e toca o mesmo. Agora, Tenerife é o alvo dos ‘disparos’

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Passou mais um final de semana tremendo na ilha de Tenerife: Regressa à fase 3, a mais restritiva desde o final do Estado de Alarme o que faz com que o Supremo Tribunal proíba o recolher obrigatório no País. Ontem, Canárias somou 195 novos contágios, 158 só em Tenerife, e um morto na Gran Canária. As estatísticas são relativamente preocupantes não propriamente pelo número de novos infectados, mas pelo incremento de casos activos e o índice de transmissibilidade, precisamente o factor R(t).

O Rt determina a velocidade de propagação de um vírus dentro de determinadas condições, expressando a aceleração do contágio. Para que todos entendam, trata-se de um indicador instantâneo e representa o número médio de pessoas infectadas que cada indivíduo contaminado produziu, ou seja, uma vez contaminado para quantas pessoas vou transmitir o vírus. O factor R(t) nada mais é do que um número indicador de quantas pessoas um determinado indivíduo pode infectar, dentro de um determinado período.

Quando esse número é menor ou igual a 1, espera-se queda no número de casos. E, quando maior que 1, espera-se um aumento.

Alguns exemplos:

Para uma taxa de transmissão igual a 2, podemos interpretar que 1 pessoa infectada com SARS-CoV-2 tende a transmitir a doença a duas outras pessoas;

Para uma taxa de transmissão igual a 0,5, devemos interpretar que a cada 2 pessoas contagiadas ocorre transmissão da doença para uma outra pessoa.


As pessoas vacinadas também podem contagiar-se e converterem-se em transmissores assintomáticos”, esta é a garantia dada por Margarita Del Val doutorada em Ciências Químicas, na especialidade de Bioquímica e Biologia Molecular. Licenciou-se entre 1976 e 1981 e depois fez a tese, no Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa. Margarita del Val de 61 anos e criada num ambiente intelectual e científico é uma viróloga defensora da vacinação.
As suas investigações centram-se no estudo da resposta imunitária face às infecções virais e, portanto, em aspectos que formam a base do funcionamento das vacinas. Entre elas destacam-se:
A interferência do vírus com a resposta imunológica.
A concepção da primeira vacina experimental baseada em epítopos T isolados, conceito que foi posteriormente a base de vários ensaios clínicos contra o vírus da SIDA ou a malária.
O estudo dos mecanismos moleculares do processamento e a apresentação de antigénios virais aos linfócitos T citotóxicos antivirais, descrevendo proteases-chave, vias independentes dos transportadores, peptídeos virais naturais produzidos em células infectadas, o que permite o reconhecimento e eliminação das células infectadas pela resposta imune celular.
Mecanismos e potenciação da memória dos linfócitos T antivirais, base de imunizações duradouras.

E é aqui que reside a preocupação dos responsáveis pelos governos do Cabildo de Tenerife e da Região Autónoma das Canárias: No dia 24 de Junho mantinham-se activos 2.414 casos, dos quais 1.538 em Tenerife. Nesse mesmo dia, as autoridades sanitárias inscreveram 213 novos contágios sendo que 157 foram diagnosticados em Tenerife, 39 na Gran Canária, 16 em Fuerteventura e apenas 1 em Lanzarote. A zero mantinham-se as ilhas de La Palma, El Hierro e La Gomera, curiosamente todas as que se incluem na Província de Santa Cruz de Tenerife e onde globalmente mais passageiros se cruzam quer por via marítima quer por via aérea. E as restrições não impõe nenhum confinamento perimetral: Circula-se livremente entre ilhas e exigem testes PCR e antígenos negativos apenas a quem não é residente no arquipélago.

Problema maior é o controlo que se continua a fazer em modo aleatório para quem vem de fora.

Ontem, dia 28, a Conselheira de saúde do Governo das Canárias notificou mais 195 novos casos de SARS-CoV-2. O total de casos activos situa-se agora nos 2.978, dos quais 27 estão internados em UCI e outros 208 permanecem hospitalizados.

Na globalidade da Comunidade Autónoma, a incidência acumulada aos 7 dias situa-se em 57,08 casos por 100.000 habitantes e aos 14 dias nos 108,64 casos.

Por ilhas, Tenerife soma 158 casos com um total de 2.360 activos epidemiológicos; Gran Canaria conta com 24 mais que o dia anterior, e 407 activos. Por sua vez, Lanzarote soma oito novos casos e 71 ativos; Fuerteventura tem cinco novos contagiados e 134 activos. La Palma, sem casos novos, mantém três activos; El Hierro, não tem casos novos nem nenhum paciente com vírus activo. La Gomera, também sem novos positivos, regista apenas 3 contaminados.

Gráfico com a cronologia da evolução da epidemia no arquipélago das Canárias até ao passado dia 24 de Junho, publicado no diário “El Día”

Ontem, nas ilhas fizeram-se 2.098 testes PCR, para um total de 1.205.887 provas.

A restauração e a hotelaria são os que mais sofrem. Como habitualmente são os únicos ‘culpados’ do crescimento das transmissões: Desde sábado voltaram a fechar os interiores; só podendo funcionar as esplanadas e com restrições. Mas nesta terça-feira, a medida foi suspensa.

Seguem-se as actividades desportivas muito diminuídas e os pacientes internados em hospitais deixam de ter visitas supervisionadas e tão pouco limitadas. Nos centros comerciais e nos supermercados o vírus segue dentro de momentos, mantém-se afastado como sempre. Precisamente no sábado acabou a obrigatoriedade do uso de máscara ao ar livre. Sondagens mostram que 82% dos espanhóis vão continuar a usá-las. Profissionais de saúde pedem para que se mantenha essa prática nas ruas. Os aerossóis mantêm-se como maiores inimigos.

Para quem não tem esplanadas regressam duas alternativas: Montar uma na via pública nos concelhos onde as autarquias autorizam estas excepções ou fechar. Os que encerram as portas veem os negócios tornarem-se ingeríveis. As expectativas são defraudadas a cada três semanas: Os empresários adquirem matérias-primas, contratam serviços e trabalhadores de acordo com a espera de determinado fluxo e trabalham em função do número de clientes que esperam e, em muitos casos, sabem que os têm. Em Tenerife e nas Canárias de um modo global o sector já não pode sentir-se mais injustiçado: Não há trabalho, não se factura e não se sabe como se pagarão as contas e alguns impostos fixados.

Torna-se cada vez mais penoso explicar a racionalidade das medidas. Precisa-se de clareza, justificar, fundamentar as medidas para que os cidadãos as entendam e seja mais fácil cumprir.

Nas varandas e terraços dos hotéis e aparthoteis veem-se os mobiliários exteriores acondicionados, como que embrulhados para que não se degradem com o passar do tempo. Muitos levam 18 meses sem abrir as portas

A situação é tão delicada que o Conselho de Governo das Canárias aprovou o decreto que prevê a afectação de 30 milhões de euros a complementos salariais para 51.027 trabalhadores afectados por Expedientes de Regulação Temporária do Emprego (eRTE, similar à lay-off em Portugal) que recebam uma prestação inferior a 395 euros mensais e até ao salário mínimo interpessoal, 950 euros.

Sábado passado, o governo espanhol aboliu a obrigatoriedade do uso de máscara ao ar livre, deixando o critério nas mãos – diria no bom senso – dos cidadãos. Felizmente, as sondagens mostram que 82% dos espanhóis vão continuar a usá-las. E os profissionais de saúde pedem encarecidamente para que se mantenha essa prática nas ruas, principalmente nas mais movimentadas.

Agora as ilhas do arquipélago das Canárias distribuem-se pelos três níveis de restrições anti pandemia de SARS-CoV-2: Tenerife inclui-se no Nível 3; Lanzarote e Graciosa, no Nível 2, enquanto as restantes cinco, La Palma. La Gomera, El Hierro, Gran Canaria e Fueteventura, no Nível 1.

Indicadores de risco actualizados a 22 de Junho são as razões apontadas:

Em Tenerife a incidência acumulada nos últimos 14 dias por 100.000 habitantes é de 165,19 casos, enquanto na Gran Canária é de 42,66 contágios. Já este indicador relativo aos últimos 7 dias situa-se nos 95,74 infectados em Tenerife contra os 18,94 registados na Gran Canária. Já os maiores de 65 anos infectados nos últimos 7 dias são relativamente baixos – 34,53 em Tenerife e 4,23 em Gran Canária – a que não será alheia a evolução da campanha de vacinação.

Por enquanto existe uma estatística positiva: A baixa ocupação de camas de UCI, apenas 7,1 na província de santa Cruz de Tenerife e 4 em Las Palmas.

Quanto às restrições temos:

No nível 3, proíbem-se encontros sociais com mais de 4 pessoas, com a óbvia excepção aos conviventes, ou seja entre famílias com maior número de pessoas por agregado familiar; mais de 4 pessoas por mesa em qualquer estabelecimento de restauração, mesmo as integradas nos hotéis e os espaços têm a ocupação limitada a 50% sejam interiores, sejam exteriores. Também se permitem entregas ao domicílio. Mas tudo isto apenas pode funcionar até às 23 horas como se houvesse “Toque de Queda” (recolher obrigatório) que está completamente proibido decretar pelas Comunidades Autónomas, após a suspensão do Estado de Alarme nacional.

Em ciclo contrário mantém-se a surpresa desde Junho do ano passado: O ridículo de que nos centros comerciais e nos supermercados o vírus segue dentro de momentos, mantém-se afastado como sempre e nestes espaços não há regras de limitação de entradas excepto em alguns estabelecimentos.

Outra das distorções prende-se com a actividade desportiva. O nível 3 suspende as competições insulares, admite os encontros desportivos a 4 pessoas, incluindo o monitor, mas admite a contradição de que os ginásios abram portas a 33% da sua capacidade, precisamente pode-se quantificar – não se percebe bem como – a limitação do espaço a 67%.

No Nível 2, onde se encontram as ilhas de Lanzarote e a vizinha Graciosa, esta última com uma população recenseada de 721 residentes, as limitações passam de 4 a 6 pessoas; os ginásios ficam limitados a 50% da lotação e os hospitalizados só recebem visitas supervisionadas. Como no nível 3, tudo encerra às 23 horas como medida de contornar a proibição do recolher obrigatório e evitar as diversões nocturnas, sempre mais difíceis de controlar pelas polícias.

Já no Nível 1, as maiores diferenças residem nas limitações quer na restauração quer nos ginásios: Nas mesas interiores não podem reunir mais de 6 pessoas enquanto nas esplanadas podem-se juntar 10 pessoas à mesma mesa, enquanto nos ginásios sobe a taxa de ocupação para 75%. Os pacientes hospitalizados podem ter as visitas normalizadas pelas regras de sempre anteriormente estabelecidas pelas instituições.

Será que os cidadãos são globalmente incultos?

Será que ninguém percebe que as vacinas anti-SARS-CoV-2 – tal como todas as outras umas mais e outras menos – não imunizarão 100% de todos quanto sejam vacinados?

Será que não temos a capacidade de perceber que haverá uma faixa de 25 a 35% de vacinados que jamais ficarão livrados de contágio?

E por que não se explica que neste como em outros casos, os vacinados com pauta completa só conseguirão imunização passados duas semanas de serem inoculados com o programa de vacinação completa?

E ainda por que razão não se quer assumir a evidência que a Ocidente a maioria dos países se encontram distantes da imunização de rebanho, ou seja de ter entre os 75 e os 85% de cidadãos totalmente vacinados? Vejamos o caso dos Estados Unidos, onde mais de 18.000.000 de residentes falharam a chamada para a 2ª dose das vacinas.

A pandemia de SARS-CoV-2 abrandou nas últimas quatro semanas e de modo mais ou menos global por efeito da vacinação a Ocidente e particularmente nos países mais desenvolvidos do hemisfério Norte que contemplou uma percentagem considerável dos cidadãos mais vulneráveis. Mas como o vírus é ‘inteligente’ procura ele próprio novas formas de se multiplicar e proliferar.

Por isso muta: Reaparece enquanto estirpes diferentes e expande-se por lugares mais populosos e com menores recursos sanitários. Foi, é, e será sempre assim quanto maiores forem as assimetrias mundiais. E enquanto estas diferenças não tiverem solução e as campanhas de vacinação não forem globais não travaremos este vírus diabólico cujas incertezas da sua origem se mantém e onde ainda ninguém sabe – ou finge não conhecer – como, onde e de que modo a epidemia se tornou pandemia.

Também dificilmente travamos esta praga teimosa enquanto a Ocidente não houver governações corajosas para legislar para pandemias, mesmo que isso custe votos em eleições futuras. Ou seja as lideranças políticas não são capazes de estabelecer o debate público determinante sobre o que deve prevalecer: A saúde pública e global dos cidadãos; ou a saúde e vontades, direitos, liberdades e deveres individuais. Portanto o que se deve considerar: O interesse colectivo ou a individualidade de cada cidadão. Findos 18 meses, a maioria dos países guiam-se por legislações relacionadas com a protecção civil ou com estados de alarme ou de calamidade, demasiado vagas para este caso de pandemia global.

Resultado: O cansaço colectivo das sociedades mais materialistas promove o relaxamento das medidas de restrição sem que os decisores oiçam os profissionais de saúde e as comunidades científicas que lida com estes temas, mesmo que por vezes não coincidam em tudo, são aqueles que são capazes de nos ajudar a vencer.

Mais uma vez as curvas descendentes começam a inverter o curso, a subir o número de infectados e a atingir mais o grupo dos mais novos, crianças, adolescentes e adultos até aos 35 anos.

Outra consequência: Decide-se vacinar crianças e adolescentes sem testes preliminares que indiquem resultados efectivos e que possam descansar a maioria de nós.

Certo, é que iniciámos o final-de-semana que agora termina com 178 315 490 de contágios confirmados e mais de 3,8 milhões de mortos, de acordo com as estatísticas, 3 858 960. Brasil e Índia ainda continuam com mais de 2.000 mortes diárias só por causa do SARS-CoV-2 e isto sem que se consigam contabilizar os falecidos que indirectamente ocorrem por esta infecção.

Apesar de toda a confusão e alarmismos adjacentes num arquipélago que, por isso mesmo, e estupidamente está às moscas, com prejuízos incalculáveis para empresários e economia global da Comunidade Autónoma, o presidente do governo, afirmou esta manhã que “acredita que estamos no momento da reactivação quando se chegar aos 70% da população totalmente vacinada ainda durante o Verão”.

O socialista Ângel Victor Torres disse que “é preciso melhorar a situação da pandemia porque a situação globalmente é muito má. Quando a Europa activa os fundos Next Generation é porque confia na reactivação. Por isso, penso que, em vez de subirmos em número de contágios e consequente aumento dos problemas globais, vamos subir em recuperação e melhoria económica».

Sem explicação ficam questões fundamentais: Como se poderá negociar com o Reino Unido para que se mantenham as exportações de produtos agrícolas (?); como se poderá garantir a opção da comercialização das bananas canárias no espaço da União Europeia relativamente às importações do produto produzido no centro e Sul do continente americano (?); como se poderá acreditar na salvação das temporadas do turismo nas próximas campanhas de Outono e de Inverno (?). Porque não se faz maior esforço em publicitar ‘Turismo Seguro’ nas ilhas – por ser verdade – entre os próprios espanhóis, optando-se por apertar o controlo nas entradas por via aérea e marítima e disponibilizando testes antígenos a quem não trouxer PCR negativo, isto independentemente dos eventuais comprovativos de vacinação completa, pois como já se percebe a imunização não suplantará os 65 a 70% dos inoculados independentemente da marca da vacina administrada. Mais, a percentagem de imunização dos vacinados baixa drasticamente perante a variante Delta também conhecida como Indiana. Veja-se o caso português: A estirpe Delta subiu de 4% para 56% num mês. E todas as outras variantes perderam relevância, incluindo as da África do Sul e do Brasil que quase desapareceram.

-José Maria Pignatelli

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