Histórias d’África – Tiro de morte no jornalismo. Mataram o ‘Clandestino’

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O jornalismo espanhol e milhões de cidadãos de todo o Mundo estão em estado de choque: Guerrilheiros do Burkina Faso mataram uma das melhores duplas de repórteres além-fronteiras, David Beriáin e Roberto Fraile que assinavam investigações das mais pertinentes ao nível mundial emitidas em DMAX, um canal de sinal aberto pertencente à Discovery Communications (com afiliações, ao Discovery Channel, Discovery Science, Discovery Civilization) e no canal Cuatro, da rede de televisão privada Mediaset España. Eram jornalistas fora da caixa, distantes do conforto das redacções que sempre se empenharam em mostrar quão o Mundo é cruel, os influentes desafiam e corrompem os poderes instituídos.

Beriáin e Fraile, este último o seu câmara, foram sequestrados e assassinados conjuntamente com um outro jornalista irlandês durante uma emboscada, no Burkina Faso, no Parque Natural de Pama, no Sudeste daquele país do Sahel, na África Ocidental. David Beriáin e Roberto Fraile seguiam integrados num grupo de 40 pessoas, formado por militares, rangers e membros de uma ONG e foram dois de 4 sequestrados após um tiroteio que um número de feridos indeterminado. Entre os quatro raptados encontravam-se os jornalistas espanhóis um outro irlandês e um militar.

Esta era mais uma missão de alto risco dos dois repórteres que se encontravam no Burkina Faso a preparar um documentário sobre a caça furtiva, o negócio ilícito, os dispositivos das autoridades locais, a protecção da fauna, bem como sobre a vida das populações estabelecidas nos parques naturais. Importa determo-nos que aquele país da África Ocidental é uma das mais importantes trajectórias do narcotráfico, tráfico de armas, de diamantes, de marfim e de animais exóticos do continente africano. É por ali que passam e são abatidos anualmente cerca de 30.000 elefantes. É também um dos países mais afectados pelos ataques de grupos radicais islâmicos numa crescente política de desestabilização e islamização dos sempre instáveis países do Centro e Norte de África, principalmente das regiões subsarianas e do Magrebe.

No entanto, não deixa de ser uma emboscada relativamente estranha e inesperada – aliás não reivindicada por nenhum grupo de guerrilheiros -, pois aconteceu numa das regiões mais calmas do Burkina Faso e por isso mesmo junto de uma fronteira porventura menos controlada, a Sul com o Benim. O país faz fronteira com outros cinco países: A norte e a Oeste com o Mali, a Leste pelo Níger, e a Sul pelo Togo, pelo Gana e pela Costa do Marfim, além do Benim. Presentemente o Burkina Faso conta com a ajuda militar das Nações Unidas e do estado francês.

Na auto-estrada, no noticiário da ‘Kiss FM’, saltou o primeiro alarme. Ao ligar a televisão, a certeza. Os espanhóis e o Mundo ficaram sem as almas de o ‘Clandestino’, David Beriáin e Roberto Fraile. Precisamente os autores de uma série documental que ficará na história por exibir a nudez tal qual é o (sub) Mundo dos mais poderosos: Do crime organizado; das economias em que o investimento do dinheiro negro é tolerado e dos poderes condescendentes. Das vidas de centenas de milhares de inocentes que se perdem à lei da bala. Deixaram-nos dois jornalistas singulares que conseguiram conquistar a total confiança dos inocentes, dos mais perigosos, das elites policiais, dos financeiros, dos promíscuos e dos políticos. Jogaram as próprias vidas tantas vezes. Foram leais a um triângulo de narrativas, de versões históricas, de contradições e de mentiras. Acabaram por morrer na berma de uma estrada do Continente do Sol dourado, onde todos são reis e não há leis, pela defesa da vida de outros como nós e de uma fauna que se extinguirá pela ganância.

Cá em casa, tornámo-nos seus seguidores a partir de 2017 e nem sequer pela minha condição de meio jornalista, mas pelo verdadeiro poder de cidadãos que saltaram da caixa do razoável conforto de quem sai de casa de manhã para regressar ao final do dia ou quanto muito depois de uns dias fora, de umas entrevistas em Bruxelas aqui ou acolá, de umas reportagens programadas sem sobressaltos tremendos… Pelo menos com a certeza meio adquirida em regressar ao lar doce lar.

David Beriáin dava a cara, oferecia a sua integridade depois de investigar e conseguir o que pretendia quase sempre. Viajou por meio Mundo: Conviveu com narcotraficantes, com negociantes de armas; viu como se compram armas legais nos Estados Unidos para as ilegalizar de seguida e triplicarem o seu valor; com guerrilheiros, com traficantes de madeiras raras, de metais preciosos; com assassinos confessos; com traficantes de pessoas e empreendedores da migração clandestina; com sequestradores na Venezuela; falsificadores de documentos; percebeu como milhares de albaneses e de sérvios saltaram para Ocidente com documentação incerta… E tudo isto em variados cenários: Desde a selva colombiana, às fábricas de cocaína no México, às favelas na Venezuela; aos armeiros americanos do Texas; aos mais poderosos bem instalados ou meio acomodados na Europa e na sua Espanha… Entrevistou ainda multimilionários que não figuram nas listas da revista Forbes unicamente por pudor.

E tudo isto aconteceu por uma razão simples: Encontrar justificação para um verdadeiro massacre da morte de mais de 1.000.000 de inocentes à lei da bala na América Latina, em escassos dez anos e já em pleno século XXI.

Com o ‘Clandestino‘, Beriáin conseguiu entrar em organizações como o Cartel de Sinaloa do México, as mais importantes bandos criminosos da América Latina, Moçambique e África do Sul. Já no final da sua investigação, o jornalista centrou-se nas actividades criminosas ao mais alto nível em Espanha e as mais conhecidas organizações mafiosas italianas como La Camorra, La Cosa Nostra ou La Sacra Corona Unita.

Em memória aos dois repórteres deixo 7 link’s de momentos e com a promessa que partilharei alguns dos documentários quer no Facebook, quer no Twitter.

Morte aos 43 anos

O jornalista David Beriáin – que faria 44 anos e tinha residência em Pamplona – tornou-se conhecido para o grande público global por apresentar e dirigir ‘Clandestino‘ – sua “criatura” como lhe chamava -, que foi emitido em Discovery Max e DMAX, canal em sinal aberto em Espanha e Itália. A entrega ‘O negócio do sequestro na Venezuela’ foi indicada em 2019 para os prestigiosos prêmios da indústria do entretenimento televisivo de não-ficção e factos, os Realscreen Awards, na categoria de documentários de actualidade. Também obteve o mesmo prêmio em 2016 com o documentário ‘La Colombia das FARC‘.

Licenciado em Ciências da Informação pela Universidade de Navarra e casado com a produtora venezuelana Rosaura Romero, recebeu em 2009, o seu primeiro galardão de jornalismo digital José Manuel Porquet, bem como ser finalista no Bayeux da Normandia, um dos prêmios mais importantes para correspondentes de guerra, por Força da sua reportagem “Dez dias com as FARC“, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo.

Desde 1980 já perderam a vida 11 jornalistas espanhóis em zonas de conflito.

Em 2012, fundou junto a Ignacio Vuelta e Adriano Morán a produtora audiovisual ’93 Metros’, especializada em grandes formatos audiovisuais, jornalismo de dados e desenho de conteúdos publicitários com câmaras de visão 360º e outras tecnologias vanguardistas.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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