Histórias d’África – Às voltas na ilha (I)

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Não é raro, mas também não é demasiadamente comum saltar de estágios climatéricos num só dia, num passeio islenho. No Atlântico, acontece em algumas paragens, principalmente nas áreas denominadas subtropicais e naturalmente nas ilhas maiores. Tenerife é um dos casos mais interessantes. Permite-mos viver momentos diferentes. Tantas vezes, de hora-a-hora. Não é discutível se é a mais bela do arquipélago. Dou o benefício da dúvida à cançonetista e compositora Madonna Louise Veronica Ciccone, nascida no Michigan, que dedicou uma das suas melhores baladas a La Palma, precisamente o tema “La Isla Bonita” incluída no seu terceiro álbum de estúdio True Blue, editado em 1986. Para a Norte-americana como para tantos famosos que ali passam férias na maior circunspecção – pois tão pouco proliferam hotéis de luxo – é como que o maior momento para revigorar ou não fosse a exuberância da ilha a fazer-nos lembrar a também Atlântica São Tomé.

Parque Rural Anaga é um dos exemplos da biodiversidade e dos contrastes tantas vezes criados nos nossos imaginários. No Extremo Nordeste de Tenerife, num sábado tipicamente subtropical na região: Ora céu limpo; nublado, nevoeiro acima dos 600 metros, e temperaturas entre os 13 e os 25º; aos altos e baixos entre cordilheiras e cumes, num verdadeiro bailado por estradas, do nível do mar aos quase 900 metros.

O Parque Rural de Anaga ocupa a maior parte do maciço montanhoso do extremo nordeste da Ilha de Tenerife. Estende-se por 14.500 hectares, entre os municípios de La Laguna, Santa Cruz de Tenerife e Tegueste.

É declarado Reserva da Biosfera, pelo esforço na conservação dos seus valores naturais de uma forma que diria de excepcional. Seguramente não fui um entre centenas de milhares que me fascinei com a abrupta cordilheira de cumes recortados. Também com os vales profundos e ravinas que como caem até ao mar. E dos que ficam entre cumes sobressaem socalcos aproveitados ao milímetro por homens e mulheres que reconhecem viver nas ilhas afortunadas que até sobre as terras aparentemente mais agrestes é possível colher de tudo, alimentar uma população inteira e exportar excedentes hortícolas.

O Parque Rural de Anaga é uma área privilegiada do endemismo: Em biologia, especificamente na botânica e zoologia, tratam-se de grupos taxonómicos que se desenvolvem numa região restrita. Falamos de um ambiente isolado com características de clima, solo e água distintos dos outros onde se selecionam as espécies que lá vivem de uma forma única… Algumas dessas espécies só se desenvolverão naquele ambiente específico.

É inarrável – aconselha-se – a viagem de La Laguna, via Las Mercedes até Taganana, Bajo del Roque e às praias de Almáciga também conhecida como Roques de Las Bodegas, por causa do antigo transporte marítimo dos famosos vinhos de Taganana, única forma de exportá-los há décadas atrás pelas dificuldades em ultrapassar as cordilheiras de Anaga.

Depois o regresso mais rápido do lado Sudeste, pela descida contígua ao Vale Crispin até San Andrés – agora, internacionalmente conhecido como fundeadouro de Tenerife para muitos navios de cruzeiro desde Março passado por causa da pandemia de SARS-CoV-2 – mesmo ao lado da capital Santa Cruz.

Foi um dia mais largo com uma viagem de quase 250 quilómetros e um regresso mais apressado com chegada à justa das 22 horas, momento em que os relógios assinalam o toque de queda, o recolher obrigatório que perdura desde meados de Março de 2020, porventura uma das maiores asneiras de avaliação da pandemia pela classe política que insiste em não ouvir quem sabe e valorar as estatísticas. Desde Agosto de 2020 – há mais de 8 meses – o número de contágios diários mantém-se inalterado com maiores ou menores restrições e é significativamente superior aos dados de infectados e mortos que nos primeiros 5 meses da epidemia internacional.

Ainda assim, há espaços interiores que se mantêm encerrados e outros abertos como se o vírus preferisse uns em detrimento de outros: Os restaurantes, bares e cafetarias são sempre os culpados de todos os males, da epidemia, mesmo que ultrapassem o cumprimento de regras fazendo das tripas coração. Quem pode e encontra uns metros quadrados livres em frente da porta improvisa uma esplanada para obter algumas receitas… Porque os municípios autorizam. Os que não conseguem continuam encerrados com os empregados em eRTE ou já no desemprego.

Nesta viagem em final de semana partilhei a desilusão de gentes de uma região que se planteia a ver, quase exclusivamente, dezenas de surfistas de mochila às costas com os bocadillos e umas latas de refrigerantes ou bebidas isotónicas. Vão aproveitar as ondas e os ventos da praia de Benijo e deslumbrar-se com a paisagem. Em Almáciga já não se bebia um café depois das cinco da tarde, apenas se conseguia umas latas de cerveja. Turistas nem vê-los e o Verão adivinha-se difícil. Fica a sugestão: Promova-se uma campanha ‘Faça Férias Cá Dentro’ – das ilhas, entenda-se -, pois pode-se sugestionar mais de milhão e meio a gastar uns tostões no consumo interno, juntando o útil ao agradável, proporcionando que milhares conheçam o arquipélago onde vivem, a história, os museus, a fauna, a flora e a morfologia e que partilhem – seguramente – experiências inesquecíveis, as mesmas que eu mesmo tenho disfrutado e que me apercebo que mais de metade dos que aqui vivem não fazem ideia delas.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

O Parque Rural de Anaga ocupa a maior parte do maciço montanhoso do extremo nordeste da Ilha de Tenerife. Estende-se por 14.500 hectares, entre os municípios de La Laguna, Santa Cruz de Tenerife e Tegueste. É uma área privilegiada do endemismo: Em biologia, especificamente na botânica e zoologia, tratam-se de grupos taxonómicos que se desenvolvem numa região restrita. Falamos de um ambiente isolado com características de clima, solo e água distintos dos outros onde se selecionam as espécies que lá vivem de uma forma única… Algumas dessas espécies só se desenvolverão naquele ambiente específico
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