Histórias d’África – Eu, de volta à escola primária

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Vou regressar às cadeiras da escola primária: Ingressarei numa espécie de curso intensivo na 6ª classe – sim, por que aqui em Espanha, o ensino primário termina no 6º ano – de compreensão, interpretação, de fazer contas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, enfim de inteligência. Mas este esforço não se fica a dever a questões linguísticas relacionadas com o idioma. É para o meu pequeno cérebro de avestruz percepcionar a gestão casual dos políticos europeus relativamente à pandemia SARS-CoV-2, principalmente daqueles que jamais trabalharam no seu percurso de vida, nem tão pouco conhecem os países ou regiões que governam.

Em Portugal já começaram a ser administradas vacinas aos cidadãos enquadrados na segunda fase do Plano de Vacinação COVID-19. mas vacinam-se pessoas abaixo dos 65 anos que não encaixam em nenhuma das duas primeiras fases, enquanto se deixam para trás cidadãos e cidadãs entre os 74 e 77 anos com doenças crónicas e ou de risco (com características descritas para a 1ª fase da vacinação) a residirem na Área Metropolitana de Lisboa que nem sequer foram contactadas para serem vacinadas

Tentarei ser telegráfico. Basicamente fá-lo-ei com interrogações. Mas antes cabe um parêntesis:

O vírus, tal como todos os outros, quando se sentem perseguidos lembram-se de se recriar em estirpes ou cepas, como lhes queiram designar. Infelizmente, na maioria dos casos, as mutações apresentam-se mais fortes e difíceis de superar: Trocam-nos as voltas, a nós e a todos os outros mamíferos com tantos descendentes num só ano. Os mais sonantes apelidam-se de cepa Britânica, Californiana, Brasileira e Sul-africana. São mais agressivos, por causa da maior virulência e da velocidade de contágio. A variante britânica tornou-se a mais infeciosa na Europa. De Janeiro a Fevereiro passou a representar de 65 a 92% da globalidade dos contágios registados. Um artigo da revista “Nature” – investigados mais de 100.000 casos e por troca de relatos escritos entre profissionais de saúde na linha da frente – adverte que o risco de morte é mais elevado em 55% para os internados em Unidades de Cuidados Intensivos com a estirpe britânica. Também sugere que as quarentenas nunca sejam inferiores aos 14, 15 dias, em virtude da certeza que já se tem sobre o facto das novas variantes perdurarem por mais tempo, mesmo nos infectados mais leves e nos assintomáticos. Outra circunstância é o elevado nível de contágio intrafamiliar com consequências graves, ou seja numa borbulha familiar de 4, 5 ou 6 pessoas e em caso de um infectado, será seguro que todos os restantes serão contaminados e um deles poderá apresentar sintomas graves.

Em França, as mutações do SARS-CoV-2 são responsáveis por estatísticas preocupantes: Terça-feira, 30 de Março, estavam internados em UCI 4.766 cidadãos.

Em Portugal administram-se as duas doses da vacina AstraZeneca com intervalo de 12 semanas por se levar à letra um estudo científico publicado na revista ‘The Lancet‘ e também por falta de vacinas e pela ideia peregrina que inocular o maior número de pessoas possível com uma só dose reduzirá a expansão do vírus. Já no arquipélago das Canárias mantém-se o propósito de conseguir vacinar 70% da população até Junho, numa altura em que só 4,55% se encontram totalmente imunizados com duas doses. Entretanto passará mais uma semana em que os espanhóis não se poderão mexer entre comunidades ao contrário dos turistas a quem o vírus não liga nenhuma e nos aeroportos os controlos continuam a fazer-se aleatoriamente.

Escrito o parêntesis, ocorrem-me as interrogações:

– Qual é o motivo que leva as autoridades espanholas a não controlar os pilotos da aviação comercial nos aeroportos desde que se apresentem fardados? E sem sequer saberem há quanto tempo não viajam e portanto se são possuidores de testes PCR negativos válidos? E porque já pedem a prova caso o piloto se apresentar identificado mas sem estar uniformizado?

  • Qual é a estratégia do Ministério da Saúde – que em Espanha tem muito poucas competências – ter assumido o controlo sanitário nos aeroportos criando um corpo de profissionais que não conseguem corresponder às exigências de segurança anti-SARS-CoV-2?
  • Por que razão não deixaram esse trabalho com os experimentados profissionais aduaneiros da Guarda Civil e do Corpo Nacional de Polícia, entidades das mais bem preparadas e equipadas do Mundo?

– Por que razão e com que critérios técnicos e científicos, em Portugal se estão a administrar as 2 doses da vacina da AstraZeneca com 12 semanas de intervalo? Contrariando o que se descreve nas características técnicas da vacina (da responsabilidade da farmacêutica e do seu criador, laboratório científico da Universidade de Oxford, o mais experimentado em vacinas, na Europa), e nos informes da Agência Europeia do Medicamento?

  • Obviamente que o aumento do hiato de tempo entre as duas doses da vacina da AstraZeneca de 21 a 28 dias para três meses, acontece por se levar à letra um estudo científico publicado na revista The Lancet, em 16 de Fevereiro passado, como resultado de testes em 17 mil inoculados. A publicação revela que a vacina se torna mais eficaz no tempo. Contudo, devemos atender aos resultados práticos globais de todas as vacinas que se ministram ou concluíram a segunda ou a terceira fase dos ensaios: A que mais condições poderá ter para contrariar as novas estirpes é a da Novavax, mesmo a mais violenta, a Sul-Africana para a qual o laboratório Norte-americano se propõe produzir uma vacina sob medida para a variante B.1.351 a conhecida por Sul-Africana.
  • Mas a medida acontece também por falta de vacinas ou pela ideia peregrina que inocular o maior número de pessoas possível com uma só dose reduzirá a expansão do vírus. A maioria dos profissionais de saúde e científicos de Espanha é redondamente contra tudo o que incumpra com as especificações descritas nas características aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento.
  • Os factos não desmentem alguma distorção na interpretação da 2ª fase do Plano de Vacinação COVID-19 de Portugal, publicado a 3 de Dezembro de 2020. Vacinam-se pessoas abaixo dos 65 anos que não encaixam em nenhuma das duas primeiras fases, enquanto se deixam para trás cidadãos e cidadãs entre os 74 e 77 anos com doenças crónicas e ou de risco (com características descritas para a 1ª fase da vacinação) a residirem na Área Metropolitana de Lisboa que nem sequer foram contactadas para serem vacinadas. É claro que já se sabe que o prazo para se completar a vacinação relativa à 1ª fase foi prolongado até dia 11 deste mês de Abril.
  • Resta-me deixar um artigo de opinião da enfermeira de especialidade Carmem Garcia, publicado em Público a 29 de Janeiro de 2021, que não se relacionando especificamente com as acepções mencionadas, antes com a globalidade da confusão que gira em torno do Plano de Vacinação Nacional COVD-19 mesmo apesar da “poluição de informação e contra-informação”.

https://www.publico.pt/2021/01/29/impar/opiniao/perolas-porcos-vergonhosa-vacinacao-portuguesa-1948472?fbclid=IwAR13dDngIt_kAFqPbj5ZnYDDJzPRYaKk8Qwjc2ij3q18oJABM-GaLPjZDEI

Dia 3 de Abril é mais um dia que marcará a campanha anti-AstraZeneca e a revolta da UE contra o Brexit: Os Países baixos suspendem a vacinação com o fármaco da AstraZeneca por efeitos secundários graves anunciados em cinco mulheres entre os 25 e 65 anos, uma das quais faleceu. Já no Reino Unido há suspeitas de 7 mortos por coágulos no sangue. Na Europa registam-se mais casos de efeitos adversos com a vacina da Pfizer. Mas impõe-se saber outra face da verdade: 15% dos infectados hospitalizados registam casos de tromboses venosas.

Por outro lado, importa despachar as vacinas da farmacêutica anglo-sueca em gente mais nova, ou não fosse a estratégia danosa dos alemães. Dos 43 casos mortais por tromboses supostamente por efeito colateral da vacinação com AstraZeneca, 31 foram notificados na Alemanha, ainda que não estejam devidamente comprovados. Por estranho que se pareça, alguns países Membros da União Europeia escondem, como convém aos investidores alemães, os registos das adversidades semelhantes ocorridas em maior número com as vacinas Norte-americanas da Pfizer – nascida no laboratório alemão da BioNTech que entretanto se mantém sobre valorado em bolsa – e da Moderna.

Na Europa registam-se mais casos de efeitos adversos com a vacina da Pfizer, mas será a AstraZeneca a responsável pelos casos mais graves (?).

Naturalmente a Agência Europeia do Medicamento está a fazer com as vacinas contra o SARS-CoV-2 o mesmo que faz com todos os medicamentos aprovados pela instituição: actualiza a base de dados pública – a EudraVigilance – com todas os efeitos secundários aos medicamentos, organizando-se de acordo com a natureza dessas reacções adversas reportadas e dos países ou regiões onde acontecem.

O governo das Canárias promete administrar 2.095.000 doses em 12 semanas, ou seja 174.583 doses semanais significando 24.940 inoculações diárias, incluindo sábados e domingos. A promessa acontece quando o recorde se situa ligeiramente acima dos 12.000 injectados num dia. Já a Policia Local da Santa Lucia, na Gran Canária, queixa-se de que nenhum dos seus agentes ainda foi vacinado.

Por que razão a maioria dos países Membros da União não revelam as estatísticas precisas quer do número de contágios, mortos e vacinados?

  • No início da semana, o Governo da Comunidade Autónoma das Canárias anunciava que se encontravam totalmente vacinados 99.380 residentes, o equivalente a 7,37% da população do arquipélago. Nada mais falso: Este número de imunizados corresponde concretamente a 4,55% considerando uma população global de 2,180 milhões. Pior só mesmo o número total das doses administradas até ao início da semana que agora termina: 281.691 doses, o que significa que apenas se encontram vacinados com uma só dose 82.931 pessoas. E de acordo com os registos de distribuição de vacinas a Comunidade das Canárias recebeu 325.300 doses, significando que não se conseguiram ministrar 43.609 doses. Desde Domingo, dia 28 de Março e durante três dias chegaram ao arquipélago mais 42.690 inóculas (5.100 da AstraZeneca, 23.400 da Pfizer e 14.190 da Moderna).
  • Outra das questões pertinentes é saber como é possível insistir no anúncio de que 70% da população estará vacinada durante o mês de Junho, ou seja dentro de 12 semanas? Uma tarefa incomensurável, mesmo considerando apenas 70% da população maior de 18 anos, o que as comunidades médicas e científicas internacionais notificam em uníssono que não chegará para obter o efeito rebanho em virtude das novas estirpes. Atente-se às contas: 70% da população total maior de 18 anos rondará os 1.098.720 habitantes. Isto resulta da estimativa de que no arquipélago das Canárias existem 610.400 menores de idade entre o total de 2.180.000 recenseados. Ora diminuindo 99.380 cidadãos a quem já foram administradas as duas doses e juntando-lhe mais 95.000 pessoas que já receberam a 1ª dose, encontram-se por administrar 95 mil segundas doses e 1 milhão de duplas doses… O governo da Comunidade Autonómica das Canárias promete injectar 2.095.000 doses em 12 semanas, ou seja 174.583 doses semanais o que significam 24.940 inoculações diárias, incluindo sábados e domingos. A promessa acontece quando o recorde se situa ligeiramente acima dos 12.000 injectados num dia, o que sucedeu uma única vez. E importa não esquecer que para se conseguirem estes resultados, o governo canário está obrigado a iniciar de imediato da campanha de vacinação acelerada.

Ronald Koeman, Gonçalo Guedes e Marcelo Vieira Júnior saltaram o confinamento perimetral das suas Comunidades Autónomas. Estes protagonistas do futebol ficam aquém da exemplaridade que lhes é devida e pedida a todos os cidadãos que vivem em Espanha. Transgrediram e só temos de pedir mão pesada das autoridades. Espanha é um Estado de Direito e as leis são iguais para todos. Já basta a incoerência de diferenciar residentes em Espanha dos turistas em matéria de restrições até ao próximo dia 9.

O futebolista português Gonçalo Guedes, do Valência, Marcelo Vieira Júnior, do Real Madrid, e o Ronald Koeman, treinador do Barcelona, ficam aquém da exemplaridade que lhes é devida e pedida enquanto figuras públicas. Transgrediram gravemente: Saltaram o confinamento perimetral obrigatório nas suas comunidades autónomas. Exige-se o cumprimento da Lei e mão pesada das autoridades. Estes protagonistas do futebol foram desleais para com todos os outros cidadãos de Espanha: Particularmente com todos aqueles que se encontram hospitalizados, alguns milhares em risco de vida, e com as suas famílias a viverem momentos de angústia; com os que não podem reunir famílias; pais e filhos que não se juntam há meses; e muito especialmente com os 100.000 que perderem a vida por causa do vírus e com as famílias que seguem enlutadas

Ronald Koeman, actual treinador do Barcelona, de 58 anos, Gonçalo Guedes, avançado português do Valencia Club Fútbol, de 24 anos, e o lateral-esquerdo do Real Madrid, Marcelo Vieira Júnior, saltaram o confinamento perimetral das suas Comunidades Autónomas há uma semana, aproveitando a paragem das competições nacionais por causa dos jogos das selecções europeias. Para apuramento do ‘Mundial do Qatar’.

Koeman viajou até Marbella, enquanto Marcelo foi veranear até Sevilha, ficando por saber qual foi o meio de transporte que utilizaram e as razões por que não foram travados em nenhum posto de controlo. Já Gonçalo Guedes foi para Ibiza, nas Baleares, e neste caso estranha-se como não foi impedido em nenhum dos dois aeroportos.

As restrições mantém-se na totalidade do território de Espanha até ao próximo dia 9, com pequenas variações entre Comunidades Autónomas, mas desta vez resultantes de uma consensualização generalizada em sede da Comissão de Saúde Pública do Conselho Interterritorial. Nas Canárias, as restrições fundamentais são iguais às aplicadas na Comunidade Valenciana

A exemplaridade pedida às figuras públicas, particularmente num momento tremendamente difícil para todos os cidadãos de meio Mundo, ficou aquém do que se esperava dos protagonistas do futebol. Infelizmente o nível cultural dos agentes do futebol não é o bastante para perceberem as regras da civilidade e cidadania: Julgam-se acima da Lei e isso é culpa de todos os que os idolatram.

Agora, espera-se que todos os três sejam notificados e devidamente sancionados de acordo com a Lei em vigor para todos os residentes em Espanha, ainda que o valor pecuniário seja irrelevante para quem aufere milhões de euros todos os meses.

Mas as restrições para habitantes em Espanha e turistas mantêm-se distintas até pelo menos dia 9 de Abril: Os de dentro não podem viajar ente Comunidades tenham ou não testes PCR negativos (slavo raríssimas excepções e de âmbito profissional); já para os turistas basta uma prova PCR negativa e o comprovativo de que têm uma reserva numa unidade hoteleira ou turística como um piso de aluguer turístico ou alojamento local.

Percebe-se a intenção: Evitar aglomerações de quem faz miniférias nesta altura de Páscoa, sobretudo nas zonas balneares. Mas não deixa de ser curioso que ao final de uma semana de confinamentos perimetrais globais, o abrandamento da pandemia começa novamente a inverter-se a todos os níveis. Segunda-feira, veremos os números relativos aos registos do final-de-semana. Por exemplo, no arquipélago das Canárias, ao final de duas semanas, as restrições resultam em nada: O número de contágios e falecidos oscila muito pouco e mantém-se acima dos registos da primeira vaga, entre Março e Agosto de 2020.

Ainda assim, Espanha e Portugal são agora os melhores países na lista dos Membros da União Europeia, com uma situação pandémica muito melhor que a França, Alemanha e Itália, este último com todo o território em alerta vermelho desde este sábado. Aliás, esta situação fez Marrocos decidir-se pela suspensão do tráfego aéreo com França e Espanha, ponderando decisão igual relativamente à Alemanha.

Apesar das dificuldades na produção de vacinas, segundo a Bloomberg, ultrapassaram-se as 628 milhões de doses administradas. Foram registadas em 150 países. A melhor marca alcançada num só dia foi de 16,3 milhões de inoculas ministradas. Os Estados Unidos lideram com uma média diária, na última semana, de 2.988.825 doses e estimam imunizar 75 a 80% da população até final de Agosto. Há uma semana, os registos estadunidenses indicavam 150 milhões de doses ministradas. Maior sucesso global só em Gibraltar, Israel, Chile, Reino Unido, Mónaco e Emiratos Árabes Unidos. Países da União Europeia em ritmo lento.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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