Histórias d’África – A era do independentismo (meio) marxista

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A Catalunha, pela segunda vez consecutiva, não deverá ser governada pelo partido que ganha as eleições. Está cada vez mais na moda valer-se da “janela de oportunidade” dos regimes parlamentaristas: A opção da maioria dos eleitores deixa de ser o incentivo das democracias. Os jogos de bastidores são os que mais valem: Proporcionam maiorias parlamentares sem a necessidade de se vencerem eleições. Esta será uma das melhores razões do absentismo cada vez maior às urnas, na generalidade dos regimes parlamentaristas.

Desta vez, o Partido Socialista (PSC) substitui o Ciudadanos: Os socialistas conseguiram eleger 33 deputados contra os 17 nas eleições de 2017, enquanto o Ciudadanos foi o maior perdedor, baixando 30 parlamentares – de 36 em 2017, conseguiu eleger agora apenas 6 representantes. Mas se em 2017, o Ciudadanos não conseguiu formar governo, o mesmo deverá suceder agora com os socialistas.


Não são profissionais de saúde em nenhum hospital espanhol. Nem tão pouco são extraterrestres. Tratam-se de membros das mesas nas secções de voto, nas eleições de Domingo, na Comunidade Autónoma da Catalunha

E por que razão?

Salvador Illa que deixou o governo para liderar a candidatura do PS afirmou claramente que não faria pacto com independentistas… E hoje, perante os resultados, a Esquerda Republicana da Catalunha, o JUNTS e os marxistas-leninistas da CUP, conseguem 74 dos 135 assentos no parlamento da Catalunha.

Desta vez a Esquerda Republicana (ERC) e o Junts (do evadido Carles Puigdemont a viver na Bélgica) trocaram de posição. O ERC conseguiu eleger 33 parlamentares, mais 1 que em 2017, tantos quanto os socialistas, ao invés do JUNTS que passou dos 34 para os 32 eleitos.

Mais de 2,4 milhões não votaram. E a pandemia de SARS-CoV-2 poderá não ter sido determinante: O número dos votos nulos mais que duplicaram: Agora acudiram às urnas 40.889 eleitores para anularem sufrágios, enquanto em 2017 foram 16.092. E o VOX de direita entra no parlamento e logo com 11 deputados.

Mas vejamos os números entre as eleições de 2017 e as de Domingo último: Há 4 anos, a participação foi de 79,09% dos eleitores – em número de 4.392.891 -, e Domingo desceu para 2.869.070, equivalente a 53,55% das intenções de voto. A abstenção cresceu de 1.161.564 para 2.488.509 de recenseados que optaram por não se deslocar às urnas. E a pandemia poderá não ter sido a maior razão: Antes o cansaço de 4 anos de governação populista protagonizada por independentistas que geriram mal politicamente, socialmente e economicamente a vida daquela região autonómica, empobrecendo a região; afugentando alguns dos maiores investidores; promovendo um referendo que pretendia escrutinar a Independência realizado sem qualquer base legal, chegando mesmo a declarar-se posteriormente a República (Democrática) da Catalunha; a registar o maior número de ocupações de imóveis que há memória com cerca de 40 casos por dia.

Aliás, uma das demonstrações que a pandemia de SARS-CoV-2 poderá não ter sido determinante está no número dos votos nulos que mais que duplicaram: Agora acudiram às urnas 40.889 eleitores para anularem sufrágios, enquanto em 2017 foram 16.092. Também se registaram mais 4.547 votos nulos.

Mas o maior acontecimento foi a entrada do VOX e logo com a eleição de 11 deputados contra os 6 do Ciudadanos e os 3 do Partido Popular.

Para este acto eleitoral estavam inscritos 5.357.579 cidadãos.

Salvador Illa promete apresentar-se na investidura, mas dificilmente será presidente da Catalunha

Salvador Illa, o polémico ministro da Saúde que geriu a primeira vaga da pandemia de SARS-CoV-2, aquando do Estado de Alarma e comando único do governo central, só poderá conseguir a investidura como presidente da Catalunha em dois cenários:

  • Dar o dito por não dito e acordar com os partidos independentistas, pelo menos com a Esquerda Republicana (ERC) e o Unidas Podemos, seu parceiro de governo nacional, conseguindo apoio de 74 parlamentares. Neste quadro pode prescindir de qualquer negociação com o JUNTS, de Puigdemont, partido ponderado como o único de centro-direita (mas com muitos militantes esquerdistas) independentista e republicano, não muito distante do PDCAT, também independentista, republicano, mas liberal e europeísta que agora ficou de fora.
  • Em alternativa negociar com o VOX, Ciudadanos e PP, traduzindo-se por um apoio de 54 deputados, contando com a abstenção do JUNTS (32 votos), deixando de fora a ERC, a CUP e o Podemos que juntos representam 50 deputados.

Os partidos independentistas juntos reúnem 74 dos 135 assentos no parlamento e expressam claramente nos seus programas eleitorais a negociação com a administração central da autodeterminação como caminho ao referendo para a independência do território.

Em todo o caso as contingências do socialista Salvador Illa são escassas: Os partidos independentistas expressam claramente nos seus programas eleitorais a negociação com a administração central da autodeterminação como caminho ao referendo para a independência do território. E nem sequer precisam do apoio dos comunistas do Podemos, o único partido republicano que fez questão de se afastar das intenções dos independentistas, apesar de se manterem críticos para com a Justiça que condenou a penas de prisão todos os promotores do referendo que ditou a celebre prematura declaração de independência da Catalunha.

Um governo de independentistas, liderado pela ERC, primeiramente sociais-democratas, mas com cada vez mais inspiração marxista, vai manter a demanda de alguns dos maiores investidores, principalmente do sector industrial e mantém os receios do falhanço na gestão da saúde pública e nas finanças da autonomia.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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