Histórias d’África – Em 7 dias na Península, os mortos por Covid foram tantos como se tivessem caído 23 aviões

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Espanha é um País que pode auto assumir-se como tendo um dos melhores serviços públicos de saúde global e a ser tremendamente afectado pela pandemia de SARS-CoV-2. Os pacientes com o vírus ocupam entre os 46 e 71% das camas de Unidades de Cuidados Intensivos em 8 Comunidades Autónomas, onde se encontram três das cidades mais populosas.

Nas próximas horas chegam a Espanha as primeiras doses da vacina da britânica AstraZeneca, criada pela equipa de Sarah Gilbert, em Oxford, no centro laboratorial Edward Jenner, precisamente o britânico que descobriu a vacina contra a varíola em 1797. Trata-se de uma inocula de vectores de adenovírus, a administrar em duas doses que pode ser transportado e armazenado a uma temperatura de 2 a 8 graus e conservada até seis meses. A dúvida reside no protocolo de vacinação, ou seja a que grupos de cidadãos administrar já que se mantém a incerteza sobre vacinar ou não pessoas com mais de 65 anos, colocando-se mesmo a possibilidade de o fazer em adultos com idade máxima de 55 anos.

O “vacunómetro” global mostrava o adiantado estado da campanha de vacinação em Israel. Dia 3 de Fevereiro já tinham sido administradas duas doses a 80% dos cidadãos com 65 ou mais anos

A vacina britânica – à semelhança de outras duas, a Suptnik 5 e a da farmacêutica Janssen, do grupo Johonson-Johnson – baseia-se em um vector adenoviral humano. Ou seja: Os “Vetores” são portadores que podem entregar material genético de um outro vírus para uma célula. O material genético do adenovírus que causa a infecção é removido e o material com um código de proteína de outro vírus, neste caso de um coronavírus que é inserido. Este novo elemento é seguro para o corpo, mas ajuda o sistema imunológico a responder e produzir anticorpos que protegem contra infecções”, no caso do SARS-CoV-2. O segredo destas vacinas terem sido conseguidas num espaço de tempo tão curto deve-se ao trabalho incessante – naturalmente por enorme pressão política -, mas, segundo os autores “à plataforma tecnológica de vetores baseados em adenovírus torna mais fácil e rápido criar novas vacinas por meio da modificação do vector transportador inicial com material genético de novos vírus emergentes que ajuda a criar novas vacinas em um tempo relativamente curto”.

Não deixa de ser curioso que esta é a metodologia que está na base dos trabalhos mais recentes na procura de uma vacina para a Malária, enfermidade declarada em 1880 e que, em 2018, atingiu 228 milhões de pessoas e matou cerca de 405 mil, principalmente na África Subsaariana. É também um dos caminhos que se segue para encontrar um químico eficaz no combate ao cancro do pulmão.

A vacina da AstraZeneca é das mais acessíveis financeiramente: Deverá custar aos Estados Membros da União Europeia entre os 2,50 e os 3€. O laboratório britânico promete entregar 400 milhões de doses para os países europeus, apesar da dificuldade no arranque de produção.

Cabe um parêntesis: 90% da pesquisa e produção de vacinas faz-se nos Estados Unidos, pois foi uma área elegida pela indústria farmacêutica Estado-unidense, enquanto na Europa e no resto do Mundo o sector optou por outros caminhos da área do medicamento. O estudo e valoração da virologia e imunologia encerra um alto nível tecnológico no continente Norte-americano, sugerindo-se mesmo que é onde existe maior número de vírus patenteados, precisamente vírus com patentes registadas.

Acções da Pfizer e a Moderna subiram em bolsa como jamais tinha sucedido em 20 anos no dia em que anunciaram a efectividade das suas vacinas acima dos 90% . E por estranho que possa parecer, foram acompanhadas pela IAG e a cadeia de hotéis Mélia cujos activos subiram exponencialmente… Os investidores acreditaram no milagre das vacinas a curto prazo

Saiba que há laboratórios que estudam vírus patenteados. O Instituto Europeu de Patentes considera que a matéria biológica isolada do seu ambiente natural (como é o caso do SARS-Cov-2), ou produzida através de um processo técnico, é patenteável mesmo que se encontrasse previamente na natureza. Portanto, uma estirpe viral isolada do hospedeiro será patenteável nos países membros da Convenção sobre a Patente Europeia, desde que essa estirpe cumpra os requisitos de patenteabilidade…

Estirpe brasileira e Sul-africana, são os piores que se conhecem, por serem as mais velozes no ciclo de contágio e as que apresentam maior carga viral. Suplantam a cepa britânica e já chegaram à Europa. E é fácil que isso aconteça: Em Janeiro quase ninguém tinha fronteiras encerradas. Por exemplo, a Portugal terão chegado 20 mil brasileiros e em Espanha entraram 8.000, alguns depois de fazer escala em Lisboa e muitos terem seguido viagem em veículo rodoviário. Já em território espanhol detectaram-se passageiros com testes PCR falsos.

Volto a relatar o acontecimento inesperado da cidade de Manaus que terá sido a primeira a conseguir a imunização rebanho antes de qualquer campanha de vacinação, isto porque 72% da sua população tinha sido contagiada. O facto fomentou um alívio das medidas restritivas e como consequência, semanas depois a cidade encontra-se num terrível processo de reinfecção pela designada estirpe brasileira muito mais violenta e mortal.

Já quanto á variante Sul-africana mantém-se a incerteza de como apareceu. Contudo, já se percebe que as vacinas da Pfizer e da Moderna que utilizam uma cópia feita pelo homem de um químico natural chamado RnA do mensageiro para produzir uma resposta refractária, têm quase nenhuma eficácia, sempre abaixo dos 20%. A maior esperança encontra-se nas vacinas de vectores de adenovírus, entre elas a mais esprimentada, a russa Sputnik e as da AstraZeneca e da Janssen.

Mas o mais arrepiante é determo-nos no número de mortos na Península Ibérica… Acompanhem-me, uma reflexão que me ocorre de imediato: Numa semanaimaginemsão tantos falecidos quantos os resultantes de 23 acidentes aéreos com aviões de curto ou médio curso que transportam entre 200 a 210 passageiros, obviamente sem sobreviventes.

E o que se precisa para travar estes números?

Vacinar independentemente de qual o tipo de inocula, seja mais ou menos eficiente, seguindo um criterioso protocolo de vacinação quer do ponto de vista ético, de grupos prioritários e com a margem de segurança em garantir stock suficiente para administrar segundas doses da mesma marca de vacina. As autoridades de saúde sabem que essa é uma determinação estritamente descrita nas características técnicas dos daqueles fármacos injectáveis: Só se podem aplicar duas porções da mesma vacina… Não é possível misturar de farmacêuticas diferentes.

Simultaneamente impõe-se um compromisso mais global: Regras de ouro como os confinamentos inteligentes, mas generalizados e antecipadamente concertados entre os países europeus.

Saiba que há outra esperança na luta contra o vírus: Reside nos bons resultados do antiviral Plitidepsina da espanhola PharmaMar cujos resultados já foram publicados Science. Os autores – pesquisadores em laboratórios Norte-americanos e em França – determinaram que “a atividade antiviral da plitidepsina contra o Sars-CoV-2 ocorre através da inibição de um alvo conhecido (eEF1A)”. Quer isto dizer: Que a plitidepsina actua bloqueando a proteína (eEF1A), que está presente em células humanas, e que é utilizada pelo Sars-CoV-2 para reproduzir e infectar outras células.

Espera-se que possa surgir um antiviral à altura de eliminar ou reduzir a mais de 90% a carga viral do SARS-CoV-2. E é crível que a plitidepsina seja o remédio mais potente descoberto até agora, pelo menos é o que revela um estudo publicado na revista Science. O medicamento é produzido pela empresa espanhola PharmaMar e já foi ensaiado em França e nos Estados Unidos “in vitro” e “in vivo” realizados em modelos animais utilizado como anti-tumoral. A eficácia antiviral e um perfil de toxicidade são promissores. Em dois modelos animais diferentes infectados com SARS-CoV-2, o ensaio demonstrou uma redução na replicação viral, e comprovou uma diminuição de 99% nas cargas virais nos pulmões dos animais tratados com plitidepsina.

A pesquisa resulta da colaboração entre a PharmaMar e os laboratórios dos pesquisadores Kris White, Adolfo García-Sastre e Thomas Zwaka, dos Departamentos de Microbiologia e Biologia Celular, Regenerativa e de Desenvolvimento da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, em Nova York; Kevan Shokat e Nevan Krogan, do Instituto de Biociências Quantitativas e Quânticas da Universidade da Califórnia, em San Francisco; e Marco Vignuzzi, do Instituto Pasteur, em Paris.

Saiba que

Ao início da semana o “vacunómetro” global mostrava o adiantado estado da campanha de vacinação em Israel, onde as segundas doses já tinham sido administradas a 80% dos cidadãos com 65 ou mais anos. Na globalidade, encontravam-se vacinados no dia 3 de Fevereiro, 58,8 cidadãos por cada 100 habitantes. O reino Unido é o primeiro país europeu com 14, 9 vacinados por cada 100 habitantes, enquanto a Dinamarca liderava o ranking dos Estados Membros da União, com 4,9% da população vacinada. Já em Espanha as estatísticas indicam que já receberam as duas doses 600 mil cidadãos.

Saiba que

A Pfizer e a Moderna – cujas vacinas utilizam uma cópia feita pelo homem de um químico natural chamado RnA do mensageiro para produzir uma resposta refractária – subiram em bolsa como jamais tinha sucedido em 20 anos no dia em que anunciaram a efectividade das suas vacinas acima dos 90% e ainda em plena terceira fase de testes: 8,57% e 2,6% respectivamente.

Outra curiosidade prende com o facto do CEO da Pfizer, entre a compra antecipada de acções e a venda nessa semana obteve ganhos de 5,6 milhões de dólares.


Cronograma mostra o hiato de tempo que foi preciso para se obter algumas das vacinas mais decisivas da humanidade relativamente ao reconhecimento oficial da enfermidade. O menor espaço de tempo registou-se com a inocula para o sarampo: Oficialmente a doença foi confirmada em 1953 e a vacina foi anunciada 10 anos depois, em 1963. Há muitos males que ainda não tem vacina, a mais antiga que se conhece é a malária, desde 1880

Mas o mais extraordinário é que nessa mesma semana – por resposta dos investidores que acreditaram em absoluto estar encontrada a solução para os males do SARS-CoV-2 – também as acções das transportadoras aéreas e das organizações hoteleiras subiram, com destaque para as exorbitâncias obtidas pela cadeia de hotéis Mélia que se valorizou em 75% e para a IAG (International Airlines Group, cujos activos passaram a valer mais 56%. A IAG agrupa oito transportadoras de onde se destaca a Iberia, British Airways, Vueling, Level, a irlandesa Aer Lingus, a IAGCargo e as companhias de baixo custo Level e Vueling, esta última a lnúmero um entre as low cost que ligam Espanha a destinos europeus.

– por José Maria Pignatelli (Texto não está escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico)

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